Práticas sugeridas por professores para conseguir calma na vida cotidiana.


A paz no seu dia a dia


Por: Greice Costa
É uma possibilidade concreta e simples. Não há necessidade de mudar de emprego, de cidade nem de personalidade para ter mais calma e plenitude na vida. Aqui, práticas palpáveis sugeridas pelos nossos professores. 




01 Inverter a tendência
Seguindo a mesma linha de pensamento do sábio Patañjali com relação à prática dos preceitos éticos (yamas e niyamas), gostaria de deixar como sugestão a possibilidade que temos de inverter uma tendência assim que ela começar a aparecer na mente do praticante. Ou seja, assim que percebermos que começa a se originar um pensamento que não é compatível com a paz comum, devemos parar e produzir outro pensamento no caminho inverso. Se começamos a sentir raiva de alguém, antes que esse pensamento se instale, procure um pensamento no sentido contrário, algo relacionado com amor ou afeto, se possível com relação à mesma pessoa ou objeto do pensamento ruim. Se estiver difícil, respire profundamente pelo nariz, soltando o ar por um tempo maior que leva para entrar por pelo menos dez vezes. Afinal, lembre-se de que ter raiva de alguém é como tomar o veneno e querer que faça mal ao outro. Se de nove situações conseguirmos modificar uma, já valeu a pena. Como dizia Gandhi: “Seja você a modificação que quer ver no mundo”.
Marcos Rojo, professor de Yoga da USP, Ph.D. em ciência do Yoga, coordenador da pós-graduação em Yoga da FMU e autor do livro Estudos sobre Yoga.


02 Não criar necessidades desnecessárias
Distinguir entre desejo e necessidade – isso minimiza o foco na carência e permite valorizar o que temos – sejam bens materiais, talentos, afetos, companhias e oportunidades para sermos úteis/benéficos a nossos semelhantes. No escopo do Yoga, seria combinar a farinha de aparigraha (desapego) com o leite de santosha (contentamento).
Lia Diskin, escritora, conferencista e cofundadora da Associação Palas Athena.




03 Saber quem você é
Acredito que a única coisa que pode nos dar paz, mas paz verdadeira e duradoura, é sermos capazes de saber quem somos e o que estamos fazendo aqui. O Yoga nos ensina que somos fabricados de paz. Essa paz, em sânscrito, chama-se shantah. Não é um sentimento ou uma emoção, não é aquela sensação de tranquilidade que ora vem, ora vai, e que é substituída pelo seu oposto, o nervosismo ou a tensão. Shantah é Paz com maiúscula, contínua e sólida. Essa paz precisa ser conhecida para ser devidamente apreciada. O caminho para a paz chama-se autoconhecimento. Quando conheço a mim mesmo como paz, nada que aconteça no mundo das dualidades poderá me tirar do centro. Ou, se alguma situação me tirar do centro, volto para ele com rapidez e flexibilidade, como o bambu que se enverga com o vento e que volta a ficar em pé quando este cessa.


Saber a sua vocação
Algo fundamental para vivermos em paz é saber qual é a nossa vocação, para compreender em que lugar e de que maneira nos colocamos na sociedade e no mundo. A paz surge naturalmente e sem esforço em mim quando compreendo que estou fazendo aquilo que cabe, da maneira mais justa e harmoniosa. Se, ao fazer aquilo que nasci para fazer, eu cometer algum equívoco, isso não vai tirar a minha paz, pois sei que estou fazendo o melhor que posso, com atentividade e consciência. A Bhagavad Gita nos ensina que é melhor fracassar cumprindo o próprio dever do que ter sucesso fazendo o dever de outrem. Isso significa que, independentemente dos resultados das minhas ações, fico tranquilo e em paz. Aprender a amar o que se faz, em vez de ficar penando para fazer somente aquilo que se quer, também ajuda a ficar dentro desse estado de tranquilidade.


Mantra e meditação
Uma prática que gosto de fazer para lembrar a paz que sou é cantar mantras. É uma maneira fácil, acessível e rápida de refletir sobre aquilo que somos. Como prática, eles nos dão ampla liberdade de escolha, tanto na forma quanto no tema. Se não souber cantar mantras, não tem problema: escolha uma boa gravação, da qual você goste, dentre as muitas que temos disponíveis hoje, encontre um lugar tranquilo, sente-se ou deite-se em silêncio e apenas ouça, dando a si mesmo o direito de parar. Outra prática que acho essencial é um tipo especial de meditação chamado nididhyasana. Essa meditação consiste em fazer uma reflexão sobre aquilo que se sabe sobre si mesmo. E, isso que se sabe, ou deveria saber-se sobre si, é que eu sou paz. No desespero e estresse do campo de batalha, o príncipe Arjuna pergunta para o deus Krishna como recuperar a paz. Ele está tremendamente deprimido e não consegue lutar. Krishna não lhe dá uma receita para praticar algum respiratório ou postura, mas ensina para o príncipe que ele já é a paz que está buscando ao tentar fugir das suas responsabilidades. Uma vez que Arjuna aprendeu a lição, cabe-lhe praticar o nididhyasana, ou seja, refletir sobre aquilo que sabe sobre si mesmo, enquanto realiza as ações que deve realizar.
Pedro Kupfer, autor e tradutor de vários livros de Yoga e editor do www.yoga.pro.br.




04 Pensar no que está fazendo
Em vários momentos do dia me pergunto: “No que estou pensando?”. Essa pergunta me mantém centrado no momento presente, o único que realmente importa – o passado não existe e o futuro ainda não chegou. Observar minha mente e o que estou pensando me traz muita paz e me faz ver que a vida deve ser desfrutada agora. Não vale a pena viver de recordações ou pensar que o amanhã nos trará felicidade.
O 27
Um exercício para manter a mente centrada no presente é praticar o aqui e agora: contar de 27 a 0 e de 0 a 27 sem permitir que pensamentos entrem. A prática cotidiana desse exercício simples em qualquer momento do dia e em qualquer circunstância trará muita paz e descanso para a mente, que é o que realmente importa.
Gustavo Ponce, autor de livros e DVDs sobre Yoga e fundador do Yoga Shala e do Canal OM, Chile.




05 Reconectar-se com a sua Fonte
Na época em que iniciava no Yoga, muitos anos atrás, deparei-me com uma constituição física definitivamente rígida. Meus isquiotibiais pareciam feitos de aço. Ainda assim, minha alma teimosa escolhia paschimottanasana (postura da pinça) como postura preferida. Tive então um sonho, daqueles muito vívidos que não se esquece jamais. Nele, meu corpo cedia primorosamente, abdome e peito tocavam as coxas, o queixo se aninhava nos joelhos sem nenhum esforço, os braços descansavam serenamente no chão, as mãos seguravam os pés sem tensão e eu respirava tranquilamente ao mesmo tempo que uma paz imensa e prazerosa invadia o meu coração. Acordei extasiada pelo potencial de paz anunciado naquela visão. Sonhos muito intensos perduram na alma, e fui levada a encará-lo como premonição: acreditei que algum dia chegaria exatamente a esse estado e assim continuei caminhando. À medida que o sonho perdia força, eu mergulhava em um paciente aprendizado de reconexão à Fonte, com muitos tropeços, bons e maus momentos, dúvidas e questionamentos, progressos e retrocessos. A rigidez parecia instalada inabalavelmente no meu corpo, ao passo que os ensinamentos recebidos – e foram muitos os mestres - começavam a levar luz ao meu pensamento e às minhas atitudes. E nesse processo surgiram ocasiões em que, em um vislumbre, fui capaz de compreender que era preciso agarrar o momento presente, que é eterno, para dele extrair a potência de novos caminhos.Compreendi que era a minha alma que resistia e que se fechava. 
A visão daquele sonho nunca me abandonou, porém esmaeceu; não lhe dei mais muita atenção. Não sei mais como e quando; foi um dia desses: paschimottanasana deixou de ser um desafio para tornar-se um dos melhores momentos do meu cotidiano. O corpo cedeu. Mesmo uma prática breve invariavelmente inclui a postura que ressuscitou o sonho de paz. Descubro e redescubro, em um obstinado exercício diário, que estar inserido no aqui e no agora é a chave para o acesso ao Todo do qual somos, cada um de nós, uma partícula. Essa inserção nos lança, por brevíssimos instantes, para fora da dimensão espaço e tempo, e ali, em um relance, compreendemos o que pode vir a tornar-se genuína compaixão, e também o que os velhos gregos chamavam de saúde: o equilíbrio entre o sentir-se bem e o abrirse para o mundo exterior. Como dizem os budistas: que todos os seres sejam felizes.
Lucia Ehlers, professora de filosofia yóguica, estudante de filosofia clássica.




06 Colocar o sagrado no cotidiano
Fique de frente a um altar na sua casa que tenha imagens ou símbolos, velas, incensos, flores e frutas e peça com devoção que essa força maior ilumine seu dia, seu caminho, que proteja seu coração e sua mente e que traga inspiração para que seu dia seja cheio de boas atitudes e bons pensamentos. Assim que chegar da rua, volte lá no seu altar e agradeça por mais um dia. Este é um hábito que tenho há alguns anos e acho que dessa forma é possível cultivar a paz no seu coração.
Kathy Lobos, professora de Vinyasa Flow.




07 Usar a memória celular
A língua sânscrita é mântrica, ou seja, cada palavra carrega em si um forte poder em sua vibração. Sempre que lembrar, coloque a atenção no presente, inspire profundamente, observando o ar entrando e saindo de suas narinas e aquiete-se. Por alguns instantes, mentalize a palavra mantra shanti (paz) com a intenção de que cada uma das suas células vibrem em sintonia com o poder da paz. Seguindo o ciclo kármico descrito nos Vedas, toda ação gera em nossas células uma memória que com o tempo gera o desejo de repetir a ação. Conforme as células vibram em sintonia com o poder da paz, vamos aos poucos sentindo o desejo de agir, falar, pensar em paz, e aos poucos nos tornamos a própria PAZ.
Márcia De Luca, autora de livros e DVDs sobre Yoga e Ayurveda e fundadora do Ciymam, São Paulo.




08 Lembrar que só o eterno é urgente
• Não atender ao telefone durante as refeições.
• Não ter raiva de ninguém por mais de dez minutos.
• “Andar mais descalço e ver mais pôres do sol”, como dizia Borges.
• Ouvir mantras no carro na hora do rush.
• Achar tempo para cultivar as amizades, principalmente nas cidades grandes, onde tudo parece pedir o fim das amizades pela ditadura do trabalho.
• Ter filhos, mesmo que há anos você acredite que ainda não é a hora. Eles nos colocam no presente, ensinam o que é ser generoso e o que é a compaixão, mostram quais devem ser nossas prioridades e nos tiram do sério!
• Ler sempre um pouco de Clarice Lispector, Tagore, Françoise Dolto ou da Bhagavad Gita, mesmo com sono.
• Respirar fundo e tentar se colocar no lugar do outro.
• Achar uma hora para fazer a receita que aquela amiga te passou.
• Ter sempre em mente que “nada é urgente, a não ser o eterno”. 
Porém, acredito que mesmo adotando tais atitudes em busca da paz diária, nosso esforço ainda não é suficiente. Esse esforço precisa ser baseado no autoconhecimento. E é a disciplina a chave. “Ser inerte é fácil, ser ativo requer um esforço tremendo”, diz meu mestre B. K. S. Iyengar.
Rosana Seligmann, coordenadora do Centro de Iyengar Yoga São Paulo.

*Matéria publicada originalmente na YJ #28

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